Novidade mas nada novo

Outro período se inicia em São Paulo: foi eleito o novo prefeito e a cidade vai das mãos do Partido Social Democrático às do Partido dos Trabalhadores. Ou das mãos de Gilberto Kassab para as de Fernando Haddad.

Hoje o momento de mudanças políticas e a reflexão pessoal que faço estão curiosamente alinhados.

Foi nessa tarde que me ocorreu, depois de quase três décadas encarnando o espírito cigano e declarando o discurso libertário, que tenho medo de mudanças.

Mesmo ciente de que temer o novo é uma sensação comum e quase natural a todos, reconheço que o tal medo é uma grande novidade para mim.

É verdade que o ambiente de mudanças faz parte de meu habitat natural. Dezenas foram as casas onde morei, algumas cidades, estados e países. As mudanças de escola foram muitas também, e assim variavam os círculos de amizade, os assuntos de interesse, hobbies, entre tantas outras coisas… Provavelmente daí eu secretamente acreditar esses anos todos numa certa imunidade aos efeitos da transição.

Seja como for, depois do almoço arranjado as pressas, com os olhos estatelados vejo que hoje eu tenho que mudar.

Principalmente porque hoje eu já mudei. Não sou mais a mesma faz um tempo e não há como retroceder. Passivamente mudei, ativamente devo mudar. Transformar do novo dentro para o já bolorento fora. Claro, se a mudança começa de dentro, ela sempre continuará lá fora.

Mas se não há por que resistir, por que resisti esse tempo todo? Por medo. Dos maiores, o medo de que se mudar terei que mudar outra vez em um futuro mais distante, ou pior, mais seguinte. Medo de uma avalanche de mudanças, uma bola de neve de medo.

Mas desde sábado passado mudou o prefeito, mudou-se para minha casa o gatinho que ganhei, mudou o tempo – que há 3 horas estava terrivelmente quente e que agora está fresco com a chuva e trovoadas-, mudou a minha amiga sempre solteira, que se casou (e fez questão de mudar pra longínqua zona norte), mudou o local do ponto de ônibus, o incomodo no dente mudou também, felizmente para melhor.

Não me perguntaram nada, não me garantiram a permanência nem duração dessas mudanças. É possível que mudem novamente. Que mude o prefeito, que o ponto volte para onde estava, que minha amiga mude para a zona leste, que o gato se vá, que eu tenha outra dor de dente, que amanheça aquele calor dos diabos.

A noite vai caindo e lá vai a data no calendário mudar também. Fico pensando nas mudanças impostas, expostas, nas mudanças que desconheço e das que não me esqueço, mudanças coletivas e individuais.

Ainda tudo igual pois tenho medo e não ouso mudar as regras e fazer alterações assim no domingo a noite. Mas amanhã o medo tem ordem de despejo e muda-se para fora levando consigo as mudanças que hoje ainda moram no peito. Afinal, amanhã é segunda-feira, dia em que tudo pode mudar.

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